quarta-feira, 1 de abril de 2009

"Milagre" pós-1964 concentrou renda em período de expansão"


[por Gilberto Costa da Agencia Nacional de Brasília]

O período militar de 1964 a 1985 abrigou grandes contradições na sociedade brasileira, como a modernização da economia a custo do agravamento da desigualdade social. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os 20% dos brasileiros mais pobres tinham 3,9% do total da renda nacional em 1960. Vinte anos depois, em 1980, esse mesmo um quinto da população concentrava apenas 2,8% de toda a renda produzida no país.
Em 1974, após o chamado "milagre econômico", o salário mínimo tinha a metade do poder de compra de 1960. Nos anos do milagre (1968 a 1973), a taxa de crescimento econômico ficou em torno de 10%, com picos de 14%, e a indústria de transformação expandiu quase 25%.As contradições econômicas de um país que ficava mais rico e a população mais pobre têm explicações políticas, avalia o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Márcio Pochmann. "A ausência de democracia impossibilitou haver pressão de baixo. A política autoritária acabava consagrando os resultados econômicos."Para a economista Leda Paulani, da Universidade de São Paulo (USP), os momentos de maior crescimento econômico são propícios para expansão do emprego e da renda, "porque a demanda por trabalho é muito alta, não há risco de desemprego". A ditadura, no entanto, impediu essa associação virtuosa ao reprimir a organização política e a luta sindical. "Os trabalhadores não podiam lutar por maiores fatias do bolo, os sindicatos estavam amordaçados", lembra.

O presidente Médici inaugura placa marcando o início da construção da rodovia Transamazônica, em Altamira, Pará, em 1970
Leda assinala que "as condições econômicas para o milagre foram colocadas no período anterior à ditadura", referindo-se à capacidade instalada da indústria e ao contexto da economia internacional. Na sua opinião, o milagre melhorou em termos absolutos a situação de setores que tiveram acesso ao crédito. "O crescimento por si só era bom. O crédito acabava melhorando a vida material. Mas, em termos relativos, as desigualdades se aprofundaram nos estratos mais pobres. Não se aproveitou aquele momento de crescimento para resolver a desigualdade distributiva. "Segundo Pochmann, no golpe militar de 1964 [assim como na Revolução de 1930] predominou uma convergência política em torno do crescimento econômico, como mecanismo de postergar as soluções dos problemas sociais e de manter a concentração patrimonial e a desigualdade de renda. "O crescimento era uma convergência que impedia a oposição frente aos resultados sociais insatisfatórios e à própria ausência de democracia.""Os ministros da economia eram pessoas muito elitistas, pensaram o desenvolvimento econômico por meio da liderança de certas elites estratégicas. No caso do campo, virou agrobusiness, no caso da indústria, foi a consolidação [do mercado de bens de consumo] e a abertura para o exterior", complementa Benício Schmidt, cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB).Conforme Schmidt, a escolha pelo crescimento sem distribuição de renda teve consequências econômicas e sociais bastante graves.
"Hoje, nossa economia está praticamente monopolizada, fruto dessa acumulação concentrada. É claro que isso não gerou os empregos que deveria, não ajudou a renda como deveria e trouxe muitos problemas. Não serviu para pressionar o sistema educacional para atender uma demanda que nunca existiu. Isso tudo foi acumulando e deu no que deu: uma das concentrações de renda mais altas do mundo", lamenta.Além da questão econômica e social, o cientista político faz a ligação entre o modelo econômico e a repressão durante a ditadura. "A elite militar estava sustentada no empresariado, com grandes conexões internacionais. Um número reduzido de empresários que financiaram a Operação Bandeirantes (Oban)", diz, referindo-se à formação paramilitar dos órgãos de repressão em São Paulo, financiada por grandes empresas, inclusive multinacionais, para combater a resistência à ditadura."Os empresários financiaram o golpe de Estado e com ele expandiram muito seus negócios, tiveram nos militares uma grande segurança, um grande guarda-chuva de proteção", avalia Schmidt.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Alteração no CDC determina tamanho mínimo de letras de contrato


A Lei 11.785, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), altera o terceiro parágrafo do artigo 54 do Código de Defesa do Consumidor. A partir de sua publicação no Diário Oficial da União nesta terça, dia 23/9, os contratos de adesão deverão ser redigidos com fonte superior ao tamanho 12. O CDC já exigia que os contratos fossem legíveis, mas não especificava o tamanho mínimo das letras.No entendimento do Idec, o ideal seria que fornecedores de produtos e serviços observassem o que já está na redação atual do CDC, sem precisar modificá-lo a este nível de detalhe. Caso a boa fé não prevaleça entre os fornecedores, a modificação pode ser inócua, já que a nova redação do artigo só define o tamanho da letra e não o seu tipo - os vários tipos de letras que existem têm dimensões relativas diferentes, mesmo que todos tenham tamanho 12.Além disso, é importante que o novo enunciado, estipulando o tamanho mínimo das letras em 12 pontos, não sirva de álibi para fornecedores em eventuais disputas judiciais, já que podem existir pessoas para as quais este tamanho de letra permanece insatisfatório.O CDC (Lei 8.078), que completou recentemente 18 anos, tem como uma de suas características mais marcantes a generalidade, ou seja, ela não procura regular detalhes das relações de consumo mas sim de estabelecer os parâmetros em que essas relações devem acontecer, garantindo os direitos da parte mais frágil - o consumidor. Lamentavelmente, o cumprimento do CDC ainda precisa ser exigido pelas pessoas, entidades e determinado pelo Poder Judiciário. Regulamentações específicas como esta sequer deveriam ser necessárias. Mas quando inevitáveis, podem constar de portarias e regulamentos, a exemplo do recente decreto federal, que regulamentou os Serviços de Atendimento ao Consumidor (SACs).O risco é querer se modificar as leis a cada nova necessidade particular que surge em períodos relativamente curtos de tempo.


IDEC- 23 de Setembro de 2008

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Pra onde irá nossos velhos e pobres (atletas)?


[por Valter Bernardo]

Qual será a grande diferença entre o futebol feminino dos Estados Unidos e o do Brasil? Será o técnico, feminino e masculino respectivamente? Será a beleza, Onde as americanas ganham em cheio? Ou seria o melhor condicionamento físico?
Essas são as pequenas diferenças. O que difere, e muito, as duas seleções é o seguinte. As jogadoras brasileiras dão a vida pelo esporte e necessitam do esporte para viver, já que nenhuma delas tem outra profissão. Então se por acaso (o que não é difícil acontecer) alguma se machuque gravemente e não mais possa jogar futebol, vai fazer o que? E quando estiverem em fase ruim e sem contrato, vai comer como? Ou quando não tiverem mais idade para jogar, vai viver de quê? Por outro lado as jogadoras americanas todas são universitárias. Jogam com amor, são ótimas atletas, mas se algo (o que já foi citado) acontecer com alguma jogadora e privá-la do futebol poderá exercer sua segunda (ou primeira) carreira tranquilamente.
Enfim se o esporte no Brasil continuar desvinculado quase totalmente do estudo, da educação futuramente, para abrigar os atletas “inúteis”, solitários e pobres, teremos que fazer como os artistas, criar um RETIRO DOS ESPORTISTAS

quarta-feira, 30 de julho de 2008

A próxima derrota dos Estados


É de conhecimento público que George W. Bush enganou seu paíse a comunidade internacional com os mitos das “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein e suas ligações com a Al-Qaida. Mas o que não se comenta na mídia ocidental é que as ilusões do presidente estadunidense nunca acabaram, e que há outras histórias em que ele continua enganando todos. De fato, uma das frases mais ditas por George W. Bush e sua administração nos últimos anos é: “ouça o que o inimigo diz: a Al- Qaida considera o Iraque a frente de batalha central na guerra contra o terrorismo”. Por ignorância ou simples má fé, as afirmações da Casa Branca provaram-se não menos enganosas do que as acusações pré-invasão do Iraque. A verdadeira “frente de batalha” nunca deixou de ser as regiões tribais do Afeganistão e do Paquistão, em que os líderes da Al-Qaida estão reorganizados após as fugas de 2001 e onde seus aliados do Talibã mostram-se a cada dia mais perigosos e audaciosos contra as forças da OTAN. Nove soldados estadunidenses morreram em 13 de julho devido a ataques do Talibã no Afeganistão, mais do que a média diária no Iraque, e militares da ocupação na região confirmaram a “deteriorização da segurança”. Na frágil situação política do Paquistão, com seu arsenal nuclear, o Talibã parece ter se enraizado entre as comunidades mais necessitadas, e o país tornou- se o novo foco da Al-Qaida e seus aliados. Apesar dessa realidade, a administração Bush continua a despachar soldados e equipamentos militares para o Iraque, deixando o Afeganistão como segundo plano, exatamente como a Al-Qaida havia planejado. É no mínimo ingênuo confiar tanto no que “o inimigo” diz. Assumindo que a Al-Qaida tenha mesmo chamado o Iraque de “frente de batalha central”, algo que a organização nunca publicou abertamente em centenas de comunicados, mas que Bush garante saber pelo trabalho do serviço de inteligência dos Estados Unidos, não é muito provável que esse argumento tenha sido usado exatamente para desviar a atenção dos estadunidenses para longe do Afeganistão? As evidências aprendidas através dos comunicados oficiais da Al- Qaida e de outros documentos divulgados no transcorrer dos anos apontam justamente que o Iraque nunca foi a “frente de batalha central”. Por exemplo: em meados de 2005, no mais alto calor das batalhas no Iraque, o homem número 2 da Al-Qaida, Ayman al- Zawahiri, enviou um comunicado aos líderes da organização no país ocupado pedindo que “se possível, guardem algo como 100 mil dólares para contribuir com os esconderijos”. Ele referia-se, obviamente, à fuga dos líderes da organização que estavam no Paquistão. Ao invés dos fundos estarem vindo do Paquistão para o Iraque, o que acontecia era exatamente o contrário. Fontes da CIA reconheceram que esse não era o modo esperado de tratar-se uma “frente de batalha central”. A invasão do Iraque representou o maior presente possível para a Al-Qaida e o Talibã, acusados pelos ataques de 11 de setembro de 2001. A invasão em 2003 desviou importantes investimentos e recursos de inteligência, como oficiais especialistas em “contra-terrorismo”, fluentes no idioma árabe, e toda a aparelhagem de espionagem, para longe de onde estavam os “homens mais procurados” pelos Estados Unidos. O Iraque tornou-se a grande distração da “guerra contra o terrorismo”, permitindo uma liberdade incrível para os líderes da Al-Qaida na sua principal base. Essa estratégia de sucesso pode ser claramente compreendida no comunicado de 2006 enviado pelo líbio Atiyah Abd al-Rahman, um dos homens mais próximos de Osama bin Laden, para o jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, comandante de uma das organizações salafistas no Iraque associadas à Al-Qaida. A carta condenava a campanha precipitada de Zarqawi no Iraque, e expressava o interesse de “agir com mais calma para construir uma força política”. Nas palavras de Atiyah: “prolongar a ocupação é nosso interesse”. Portanto, ao invés de atacar os invasores com o intuito de expulsá-los e estabelecer uma base permanente no Iraque, como proclamava George W. Bush, o alto escalão da Al-Qaida queria mesmo amarrar os estadunidenses no Iraque, para que a liderança pudesse respirar com mais calma entre o Afeganistão e o Paquistão. É irônico então que os mais recentes relatórios da Estimativa de Inteligência Nacional (EIN) dos Estados Unidos, que expressa consenso entre todas as 16 agências de inteligência estadunidenses, concluem que a guerra do Iraque tornou-se a “causa célebre” para “cultivar interessados pelo movimento jihadista internacional”. O Iraque tornou-se um local seguro e aberto para a recrutação da Al-Qaida, e ao mesmo tempo diminuiu a perseguição aos líderes no Afeganistão. Exatamente como a administração Bush menosprezou os perigos dos seus primeiros meses na Casa Branca, o mesmo erro repete-se hoje. A próxima derrota dos Estados Unidos está sendo escrita neste momento. [Oriente médio vivo, ed. 113]

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Desculpas


Ólá a todos. Desculpem nosso descuido, que aqui se traduz em : não atualização de blog. Mas faculde... final de semestre... é fogo. Esperamos que aceitem nossas desculpas e continuem a vizitar o Rodizio Cultural. Gostaria de lembrar mais uma vez que aqueles que tiverem interesse em mandar algum artigo para o nosso blog para ser publicado, fiquem a vontade: juninho.historia@hotmail.com ou amiltoncma@yahoo.com.br.

Obrigado a todos. Rodízio Cultural

Papado de Carlos Magno ou reinado de Leão III





[Por Valter Bernardo]


Se podemos afirmar que, apesar das grandes conquistas e avanços do cristianismo como o fim das perseguições (313), a constituição do cristianismo como religião oficial do império romano (392), a conversão dos reis germânicos ( que não quer dizer a conversão de todo o reino), o grande trunfo da perseguição ao paganismo; o maior investimento da Igreja, pressupondo seus objetivos de universalização da religião e de uma

teocracia religiosa, foi a “fusão” com o império carolíngio, ou mesmo antes disso, a aproximação com a família aristocrática franca : os carolíngios. É também lícito dizer que com todo o esforço de unificação militar iniciado com Carlos Martel, vice-rei dos francos e vitorioso em Poitier contra os muçulmanos, e continuado por ser filho Pepino, a grande empreitada carolíngia foi a associação com a Igreja que podemos ilustrar com coroação de Pepino pelo bispo de Roma em 754 e com a doação de Constantino. Daí pra frente até o fim do império carolíngio com o tratado de verdun (843) onde está o papa está o rei, onde está a espada está a cruz. Assim

o movimento carolíngio repousa sobre uma aliança entre o império e a Igreja, que assegura, através de uma troca equilibrada de serviços e apoios, o desenvolvimento conjunto de um e de outro. (Baschet, p.72)

Carlos Magno da continuidade a tentativa de unificação militar de seu pai, (Pepino, o breve), com investidas na Itália, na região dos saxões com extrema violência, na Germânia, na Polônia, Hungria e contra os Pirineus para formar uma zona de proteção contra os muçulmanos ibéricos. “Carlos Magno consegue reunificar uma parte considerável do antigo império do ocidente.” (IDEM, p. 70). As investidas de Carlos Magno que não só eram militares, mas levava a intenção de cristianização dos pagãos e hereges resultou em sua coroação pelo papa Leão III, em 800, e é a este que se deve a maior intenção nessa iniciativa, já que com isso “o papa sinalizava ao franco que este tem sua dignidade a partir da igreja” (IDEM. P.71).
A relação de vassalagem iniciada com Carlos Magno, onde se dividia o território em “pagis”, que eram dados em troca de serviços prestados ao Rei aos condes e nas regiões de fronteira aos duques e marqueses (títulos estes de nobreza também instituídos por Carlos Magno) demonstra que a administração do reino não era fortemente organizada e centralizada. Há também nesse momento um desenvolvimento nas zonas rurais, um aumento demográfico e a retomada do comércio que leva a uma maior organização monetária com a decisão de Carlos Magno em substituir a cunahgem de ouro pela de prata.
Os clérigos são personagens importantes na administração deste reino, onde o imperador é quem nomeia os bispos, abades e dispõe de grande número de igrejas (180) e monastérios (700). Contudo a Igreja se beneficiava nesta situação com proteção, terras, autonomia judiciária e fiscal e com o dízimo tornado obrigatório em 779.
Porém “é no domínio do pensamento do livro e da liturgia que o renascimento carolíngio conhece seus mais duradouros sucessos” (IDEM,p.74) No período carolíngio principalmente com Carlos Magno e seu filho Luís, o piedoso, reúne-se um grande números de intelectuais ao redor da corte. Com o objetivo principal de difundir os textos fundamentais do cristianismo, homens letrados e clérigos promoveram um grande avanço na história das técnicas intelectuais. Entre elas estão a generalização das letras minúsculas, mais elegantes e que tornavam os livros mais manuseáveis e legíveis, o hábito de separar as palavras e as frases uma das outras com o desenvolvimento de um sistema de pontuação, o aumento na produção de livros, a conservação da literatura latina antiga graças ao trabalho dos copistas e, por fim, a reforma litúrgica que unificou os ritos religiosos , não os deixando “à mercê da diversidade dos costumes locais” (IDEM.p.76). As artes também inovam. A arquitetura acompanha a liturgia, ambas cada vez mais bem elaboradas, imponentes e poderosas. As imagens de santos repletas de detalhes e a multiplicação no domínio literário também ajudam a ilustrar esse momento de grande produção cultural e intelectual.
A unificação carolíngia, apesar de pequena (+ou-751-843) deixou marcas duradouras. Contudo com a regionalização do poder, a formação dos feudos e a pulverização do império pelo pacto de Verdum (843) essa unificação não foi mais possível dando origem ao germe dos Estados independentes.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

A normalidade da violência em Roma


[por Noberto Luiz Guarinello]

Para o gladiador dor e morte deixavam de ser coisas terríveis para se tornar parte corriqueira da vida. Honra e vergonha são palavras-chave para entendermos a paixão romana pela arena

Os jogos de gladiadores fornecem um bom exemplo dos intrincados percursos sociais do espetáculo no mundo romano. As disputas de gladiadores eram um fato normal da vida cotidiana havia muito tempo. Durante o Império, os combates de gladiadores aumentaram de freqüência e se difundiram por todo o mundo romano. Surgiu um tipo especial de edifício, o anfiteatro, que funcionava como palco das lutas entre gladiadores e de outras formas de espetáculo. Em Roma, assim como nas províncias, as lutas de gladiadores estavam sempre ligadas à pessoa do imperador. Era ele que as oferecia em Roma e, nas províncias, eram os sacerdotes do culto imperial os responsáveis por sua realização. Os anfiteatros eram uma espécie de microcosmo da sociedade romana, como parte e reflexo do cotidiano. Os assentos eram repartidos segundo as classes da população, e o próprio anfiteatro era um local onde a população não apenas via, mas se fazia ver e ouvir, no qual imperador e plebe, dirigentes e dirigidos se confrontavam face a face, onde o anonimato da massa conferia força e consistência para o apoio ou para as reivindicações da plebe. Nesse espaço, sagrado e mundano, as lutas entre gladiadores ocupavam um lugar especial.O anfiteatro era, para os romanos, parte de sua normalidade cotidiana, um lugar no qual reafirmavam seus valores e sua concepção do “normal”. Nos anfiteatros eram expostos, para serem supliciados, bárbaros vencidos, inimigos que se haviam insurgido contra a ordem romana. Nos anfiteatros se supliciavam, também, bandidos e marginais, como por vezes os cristãos, que eram jogados às feras e dados como espetáculo, para o prazer de seus algozes ou daqueles que defendiam os valores normais da sociedade.Mas os combates de gladiadores ocupavam um lugar à parte, um lugar de honra. Embora, de início, os gladiadores tenham sido, em sua maioria, prisioneiros de guerra ou escravos, na época do Império boa parte era de origem livre, os auctorati, que se ofereciam como gladiadores, colocando-se sob o poder de seu mestre (o lanista), ao qual prestavam juramento sagrado.Esse juramento transformava o gladiador num ser para o qual a dor e a morte deixavam de ser ameaças terríveis para transformar-se em parte corriqueira da vida: um simples momento, o momento da verdade, que deixava de ser objeto de angústia para se tornar objeto de honra. Honra e vergonha são palavras-chave para entendermos a paixão que os gladiadores suscitavam no mundo romano. O gladiador vencido, em vez de lutar inutilmente pela vida, oferecia graciosamente o pescoço a seu adversário e à platéia. Transmutava, assim, a vida num combate glorioso, cujo fim, necessário para todos, podia ser uma morte digna. A figura do gladiador era um belo espelho de realização humana, um modelo para filósofos e religiosos. Não era o massacre, a vista do sangue, a dor alheia que seduziam os espectadores, mas um uso, todo próprio, todo especial, todo romano, do que nós mesmos consideramos uma violência absurda.

Revista História viva ed.56- junho 2008

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Apelo de uma geração desiludida

[por Amilton Augusto]

Maio de 1968! Revoluções estavam por acontecer! As massas efervescentes em vários cantos do mundo estavam em ebulição, lutavam pela liberdade. Na verdade, não existia uma unidade na luta ideária, cada qual queria um objetivo diferente, mas o fato era - liberdade a qualquer preço. Uma revolução para os românticos, uma baderna para os conservadores. Maio de 68 pode ser pautado de maneiras diferentes, depende apenas do ponto de perspectiva.

Brasil, México, França, Estados Unidos, Tchecoslováquia, Polônia... Em cada uma destas partes, a juventude e os operários lutavam contra as ditaduras, contra o modo de vida patriarcal, contra o racismo, pelo fim da Guerra do Vietnã... No Brasil, em particular, a geração de 1968 saía às ruas das grandes cidades em protesto, contra um regime autoritário e ditatorial: os artistas faziam suas manifestações nas peças teatrais, no cinema, na música (graças a essa geração artística herdamos boas obras musicais). Um ar de esperança pairava sobre as pessoas com sede de mudança, de liberdade, de romantismo.

Quarenta anos se passaram e muito nos ficou da década de sessenta: liberdade sexual, diminuição de preconceitos raciais, fim de várias ditaduras, melhor igualdade entre homem e mulher, a arte peculiar desta época, a organização estudantil, etc. É quase impossível medir os pontos positivos e negativos - como já disse, vai depender do ponto de vista. Chico Buarque, em sua música Tanto Mar, elogia a Revolução dos Cravos e, por outro lado, critica, porque o fogo da revolta portuguesa não durou depois da queda da ditadura salazarista. Peço licença ao grande Chico, pois, da mesma maneira que o mundo ferveu rápida e esperançosamente em 1968, ele esfriou e até hoje sentimos o frio cortante da falta de vontade do povo.

Entre todas as heranças possíveis, nós brasileiros, deixamos de herdar algo de fundamental importância: a garra, a luta, a coragem de dizer não à opressão... A geração que pegou em armas na década de 60 e 70 no Brasil envelheceu, se tornou burguesa (nem todos) e pouco aprendemos com eles. Hoje nos sentimos mais à vontade dentro de nossas casas, de meias de lã e barriga cheia, outros sem meia e de barriga vazia, mas em comum têm a falta de vontade. Se um dos objetivos da história é aprender com o passado, a lição está dada, o problema é que muitos “tomaram bomba” na disciplina “Revoluções de 1968”.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Vida pra se viver, vida pra se pensar, vida pra se fazer


[por Valter Bernardo]
Estamos nós, quem? Seres humanos, animal racional (Aristóteles)? Bípede implume (Platão)? Ou cadáver adiado (Fernando Pessoa)? Dispostos, hoje em mais de seis bilhões numa “bola” de terra que chamamos terra, um planeta (planetès- vagabundo, errante) em meio a mais nove conhecidos planetas, dispostos na Via Láctea, uma galáxia disposta em um universo de cem milhões de galáxias. E de onde veio tudo isso? Há quanto tempo?

O que é a vida? Um enigma? Uma mágica? Apenas o intervalo do tempo entre nascer e morrer? Tudo? Nada? Quando ela se inicia? Na fecundação, na primeira inspiração extra-uterina ou em outro momento? Quando ela termina? Quando pára o coração? O cérebro? Ou na ultima expiração? Vivemos pra viver ou vivemos pra morrer? Morremos porque pouco (e/ou mau) vivemos, ou morremos porque vivemos o bastante? O que é a morte diante da vida? O fim, o começo ou é passagem/continuidade? O que é a eternidade diante de nós seres finitos de fins findáveis?

Respostas a tudo isso por muito tempo (pra não dizer pra sempre) serão insatisfatórias, e é bom que seja assim, um enigma perde todo o encanto ao ser decifrado.

Eis os dilemas da vida: de onde vim? Quem sou? Pra onde vou? Verdadeiros dilemas, indagações inquietantes e insolúveis. Já aquilo que temos a capacidade e possibilidades de solucionar como a fome , a miséria, a solidão, o desamor, estas são mazelas da humanidade, fruto da crueldade humana geradas nas em suas próprias idiossincrasias.
Muitos seres humanos são privados do direito de viver e por isso não vivem, e sim sobrevivem. Não podem viver pra pensar a própria vida, para escolherem o que mais lhes fazem felizes. “são alienados de seu trabalho”, e diria mais, alienados de sua própria condição de seres humanos.

O tempo médio da vida humana é de aproximadamente sessenta anos. Os primeiros vinte anos dedicados à construção das estruturas(físicas e mentais), os vinte intermediários ao aproveitamento concentrado destas e os últimos vinte anos se desmontando. Passa-se um terço da vida dormindo e um terço trabalhando. (Cortella, 2001). Mas nem sempre é assim, enquanto uns trabalham os sessenta anos outros “só vivem” durante a vida, alguns dormem uns quarenta anos, há aqueles que morrem nos primeiros vinte anos etc.
Contudo o grande flagelo humano (repito) é ser impedido de viver pra se pensar a própria vida, pensar em outras possibilidades de se viver, mais e melhor. O grito da humanidade ainda ecoa pedindo vida, vida pra se viver, vida pra se pensar, vida pra se fazer.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Vende-se Sensacionalismo


[por Amilton Augusto]


Caso Nardoni, Ronaldinho e travestis, Big Brother Brasil, e inúmeras notícias com pouca utilidade, bombardeiam nossas vidas. Basta ligar a televisão ou acessar algum portal de notícias, e elas, as fúteis notícias, vão explodir na sua cara. Com sensacionalismo e muita comoção, vamos todos prestar atenção arduamente e nos levar para dentro dessas intermináveis novelas fictícias. Sim! Fictícias... O que fazem as mídias de massa são ficções. Primeiramente, porque é impossível saber o que realmente aconteceu nestes casos, e as “grandes” mídias nos fazem o favor de julgar previamente, e com mais convicção que o próprio tribunal.

Deve ser imperceptível aos olhos da grande massa brasileira que centenas de pessoas, principalmente crianças, morrem diariamente no Brasil vítimas da fome, da violência, do descaso público, da injustiça social? Não é possível julgar qual crime ou qual brutalidade é mais cruel: uma criança que morre assolada pela fome no sertão, ou um pai de família que é assaltado, ou uma criança que é jogada pela janela de um prédio. Crimes bárbaros acontecem todos os dias, mas nos assombramos somente com aquilo que a mídia nos mostra como grave. Perdemos a capacidade de separar trigo do joio, de saber o que é e o que não, a imprensa faz isso para nós, ao seu gosto, é claro!

E o jogador de futebol que se envolve com homossexuais? Não somos livres? Só porque se trata de um craque do futebol e milionário, ele não pode mais ter seu momento de lazer? Onde ficam nossos direitos de ir e vir? Mais uma vez, a mídia nos conta o que é “importante” e o que não deve ser comentado... E, mais uma vez, lógico, a seu gosto! Isso tudo faz parte de uma engrenagem milionária que cria um sensacionalismo para nos prender e faturar alguns milhõezinhos. A essência humana é entregue às peculiaridades do capitalismo selvagem, inclusive a sua.

“Cem Marias para cada Madeleine”, foi este o título de um artigo que li na revista Caros Amigos, feito pela jornalista Natália Viana. Tratava-se de uma frase proferida por um redator de um jornal inglês à jornalista, referindo que a morte de uma criança européia vende mais que de cem crianças peruanas, ou seja, a realidade nos é mostrada de acordo com seu valor financeiro. Cabe a nós sabermos escolher o que ler e o que não ler, no que acreditar e no que não acreditar. Um jornalista sério para cada cem não sérios, esta é a verdadeira frase por trás da fala do inglês.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Cem Marias para cada Madeleine

[por Natalia Viana da revista Caros Amigos]
Esse texto poderia começar de muitos jeitos, mas acho que o melhor é começar pelo sábado, 26 de janeiro de 2008. Eu, sentada ao lado do editor do jornal britânico Independent, onde trabalhei durante alguns meses, anunciava minha saída e aproveitava para perguntar se a eles interessariam reportagens free-lancer sobre a América do Sul, que eu poderia fazer quando voltasse. A resposta:
- Olha, ainda vale a velha regra: mil peruanos equivalem a 10 franceses. Então é assim, se tiver um acidente, um desastre muito grande...
A frase não me surpreendeu. Não foram poucas às vezes, ao longo desse ano e meio vivendo em Londres, em que ouvi jornalistas me dizendo claramente que à imprensa inglesa não interessa a América Latina. Mas ela apontou para uma coisa seriíssima que está acontecendo com o nosso próprio jornalismo internacional. Explico.
Com a falta de dinheiro na maioria das empresas de mídia no Brasil, e ao mesmo tempo com o advento da internet e dos canais de notícias 24 horas, a notícia internacional, se antes era mercadoria, agora virou mercadoria baratíssima.
Para preencher tanto espaço em branco, em tão pouco tempo, os veículos optaram pelos serviços das agências internacionais, um punhado de empresas – todas sediadas em países ricos – que dizem ao mundo todo o que é notícia e o que não é. Assim, a Reuters, de origem alemã e sede em Londres, a CNN americana, a AFP francesa, a BBC inglesa – financiada, não por acaso, pelo Ministério do Exterior britânico – difundem a sua visão de mundo, a sua própria cultura e o seu jeito de fazer jornalismo.
Não é negativo o advento das agências de notícias. É fantástico poder ter informações rápidas de vários cantos do globo com um grau razoável de confiabilidade. O problema é como o nosso jornalismo internacional tem cada vez mais se baseado apenas no que dizem essas agências.
Funciona assim: o repórter de uma agência escreve a matéria, entrevistando essa e aquela pessoa que considera relevante. Seu texto então é editado por alguém na sede, invariavelmente em um país do norte, e checado contra as informações de outra dessas agências. Se há um serviço em português, os redatores terão que simplesmente traduzir a notícia, e assim ela chega a nós.
Hoje, no caso do Brasil, é cada vez mais comum que as publicações diárias usem esses mesmos relatos, vindos de diferentes agências, para compor a reportagem que virá na edição do dia seguinte. O mesmo acontece com as revistas e com os canais de notícia da TV.
Há exemplos chocantes, como o fato de muitas informações que lemos sobre a América do Sul terem sido coletadas por repórteres americanos, ingleses, franceses, enviados para a Europa e traduzidas antes de serem reescritas para o nosso consumo. Estamos, na prática, terceirizando a nossa visão sobre o mundo.
Um dos tristes resultados desse novo modelo é a morte lenta e dolorosa da figura do nosso correspondente internacional. Há ainda ótimos correspondentes, claro, mas cada vez em menor número.
Os que ainda sonham testemunhar e reportar coisas significativas que acontecem no mundo têm que se contentar com um pagamento magríssimo. Em conseqüência, sou testemunha da explosão de novos tipos de jornalistas até então inéditos, como a correspondente-e-garçonete, correspondente-e-carregador-de-malas, correspondente-e-babá. Sendo, sempre, o subemprego o trabalho principal e o jornalismo quando se tem tempo.
É o colonialismo noticioso: embora a globalização tenha trazido melhores relações internacionais para o Brasil, com negócios, turismo, imigração, etc, estamos aceitando sempre a versão da história que nos está sendo contada pelas agências, condizente com a sua linha editorial, e, mais a fundo, com os seus preconceitos.
Um bom exemplo foi a avidez com que a imprensa brasileira acompanhou o sumiço da menina inglesa Madeleine MCcann, em Portugal, no ano passado. Por aqui, a cobertura foi obsessiva, pra pegar leve. A cada dia novos detalhes, na maioria infundados, apareciam e eram reproduzidos incessantemente por sites brasileiros, canais de TV e até jornais. Engolimos sem refletir que, na balança das agências globais, a vida de uma linda menininha inglesa sempre vai valer mais do que cem Marias brasileiras.
Foi isso que me veio à cabeça ouvindo a resposta do colega do Independent. Antes de agradecê-lo pela honestidade – e ir embora com o rabinho entre as pernas – respondi:
- Claro, mil peruanos valem o mesmo que dez franceses, ou uma Madeleine.
Ao que ele consentiu com a cabeça e um sorriso sem-graça.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Copiar é preciso

[por

IDEC-Revista n° 120 - Abril de 2008]

Pesquisa do Idec revela que a falta de livros nas bibliotecas, seus altos preços ou mesmo sua indisponibilidade nas livrarias, dificultam o acesso dos estudantes às obras da bibliografia básica.

Um levantamento realizado pelo Idec concluiu que o estudante universitário brasileiro tem acesso limitado ao conhecimento contido na bibliografia básica dos cursos universitários. Nas bibliotecas de treze deles, pesquisadas pelo Instituto, faltam em média 34% dos livros recomendados. Em uma delas, esse percentual chegou a 58%. Outro fator observado foi o preço das obras. Caso fosse adquirir todos os livros recomendados, o estudante gastaria, em média, quase R$ 3.400 no decorrer de sua graduação. E, em alguns casos, ainda mais: R$ 5.838 ou até R$ 12.255. Já o valor que o aluno gastaria na compra dos livros não disponíveis nas bibliotecas equivale a 23% (média) do custo total com a bibliografia.

Também é muito grande o número de títulos esgotados adotados no ensino superior. Dentre os 34% de livros não disponíveis nas bibliotecas, 44% tampouco foram encontrados no mercado. Esse percentual sobe para 74% em um dos cursos de Administração pesquisados. Ou seja, mesmo que tenha condições de comprar, o aluno poderá não encontrar os livros de que precisa para seus estudos.

Para o Idec, o baixo número de títulos nas bibliotecas, o alto preço das obras e a falta de vários títulos no mercado, além da ausência de uma política nacional que fortaleça as bibliotecas, demonstram que para promover o acesso ao conhecimento é necessária a utilização da cópia reprográfica. Feita a partir dos próprios livros das bibliotecas ou do acervo de professores, a prática teria a função de suspender a barreira que há entre os estudantes e a bibliografia básica de seus cursos.

A partir dos principais dados revelados pela pesquisa do Idec, cujos resultados parciais já haviam sido divulgados em maio de 2007 (veja edição 111 da REVISTA DO IDEC), sobram argumentos para que, no mínimo, seja colocada em discussão a limitação de fotocópias de textos por parte dos alunos, em nome da proteção do direito autoral.

"A idéia do levantamento surgiu com a insatisfação dos universitários devido à falta de acesso aos livros e com o aumento das apreensões de material copiado nas instituições, a partir de 2005", afirmou Luiz Fernando Moncau, advogado do Idec responsável pelo levantamento. A reação dos alunos a essas ações, assim como aos diversos processos judiciais movidos pela Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR) contra universidades e estudantes, culminou na criação do Movimento Copiar Livro é Direito, em maio de 2006, no Diretório Acadêmico do curso de Administração da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo.

POUCOS EXEMPLARES

Dos 659 títulos recomendados pela bibliografia básica dos oito cursos particulares pesquisados (veja quadro), 32% não estavam disponíveis nas bibliotecas. E o número de exemplares por 100 alunos ficou entre 1 e 20. Em Economia, foram encontrados 11 exemplares para cada 100 alunos, em média. No caso de Administração, 7 para cada 100, em média. E em Direito, apenas 3 exemplares para cada 100 alunos, novamente em média.

Nas duas universidades públicas constantes no levantamento, dos 226 livros recomendados pelos 5 cursos pesquisados, em média 38% não estavam disponíveis em suas respectivas bibliotecas. Já o número de exemplares para cada 100 alunos variou entre 3 e 9, nas 5 bibliografias pesquisadas (veja tabela).

Enquanto um grupo de 100 alunos nos Estados Unidos e na Europa conta, em média, com 20 livros, aqui, segundo o levantamento do Idec, eles têm à disposição apenas 7,5 livros. Nos Estados Unidos e em muitos países europeus, o padrão das bibliotecas é de 1 exemplar para cada 5 leitores, segundo o estudo A economia da cadeia produtiva do livro, publicado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

"Faltam políticas nacionais que estruturem as bibliotecas", afirma Fábio Sá Earp, um dos autores do estudo do BNDES. "No Brasil, embora não sejam poucas, as bibliotecas são pobres, isoladas, mal administradas e vítimas constantes de roubos. É impossível cobrá-las pela falta de exemplares, já que não há verba para que acompanhem o crescimento do mercado editorial." Para ele, tanto as bibliotecas públicas quanto as particulares deveriam ser subsidiadas pelo governo e pela iniciativa privada.

VALORES ALTOS

No curso de Administração das particulares, a média do gasto com a bibliografia básica completa seria de R$ 1.386, mas em uma das instituições chegaria a R$ 2.543. No de Economia, o gasto médio ficaria em R$ 1.850. Já no curso de Direito, o valor médio subiria para R$ 7.795, podendo atingir os estratosféricos R$ 12.255 já citados, em uma faculdade particular do Rio de Janeiro.

Nas faculdades públicas, foi possível constatar uma variação grande, entre os cursos, das quantias a serem investidas em livros. No Rio de Janeiro, o total referente aos livros do curso de Administração ficaria em R$ 206. Para o mesmo curso, em uma instituição de São Paulo, a quantia seria de R$ 4.665.

Vale lembrar que os valores levantados pela pesquisa do Idec podem ser ainda maiores, já que para 8 dos 13 cursos pesquisados não foi possível encontrar à venda nas livrarias todos os livros indicados.

INCENTIVOS?

Enquanto faltam subsídios para as bibliotecas, sobram para as editoras, que os recebem desde a década de 1960. "O total subsidiado chega a 1 bilhão de reais ao ano, o dobro do orçamento do Ministério da Cultura", diz o professor Pablo Ortellado, um dos coordenadores da pesquisa "O mercado de livros técnico-científicos no Brasil", da Universidade de São Paulo (USP). Em dezembro de 2004, o governo concedeu novas isenções, relativas ao PIS/Pasep (Programa de Integração Social e Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público) e à Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social). A idéia era que, assim, se estimulasse a redução do preço do livro, o que não aconteceu.

Números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstram que, entre 2005 e 2007, o preço médio do livro, na realidade, subiu. Em 2007, o aumento foi de 5,21%, acima dos 4,46% da inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Outro dado revelado no estudo da USP é que, nos cursos de "excelência acadêmica" (classificados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, a Capes), 86% dos livros foram escritos por autores subsidiados por instituições públicas. Já nos cursos de "sucesso comercial", com mais alunos inscritos (classificados pelo Ministério da Educação), o mesmo ocorre com um quarto dos livros recomendados. "Mesmo que o conteúdo tenha sido feito com dinheiro público, é preciso autorização para a cópia", afirma o pesquisador. "É a apropriação do bem público pela iniciativa privada."

Democracia: utopia ou transvestimento?


[por Amilton Augusto]







Fico a pensar: "vivemos em um país de regime democrático?". Acho que não! E, em uma reflexão menos simplista, vejo que vivemos em uma oligarquia disfarçada com rótulo de democracia. Tudo "para inglês ver", ou usando um jargão em termos tupiniquins: "para brasileiro desinformado acreditar".

A palavra democracia surgiu na Grécia Antiga, mais especificamente em Atenas, por volta do ano 505 a.C e significa "poder da maioria". Também na Grécia Antiga, o modelo político foi inventado. Os gregos eram um povo realmente preocupado e participativo nas questões políticas (sorte deles, que naquela época não existiam a política de "pão e circo" ou o Big Brother Brasil, para infectar as mentes das massas e massacrá-las), participar do senado era bem mais que um dever, mas, também, uma questão de status social. Porém, estes povos eram excludentes e, não aceitavam qualquer um como cidadãos (somente cidadãos tinham direitos políticos). Mulheres, escravos, estrangeiros, pobres e crianças não eram aceitos no senado. Este grupo representava a grande maioria da população; nascia, então, a grande falha da democracia grega: no governo das maiorias, somente alguns (os melhores ou os aristóis (aristocratas) tinham direitos efetivos no poder.

Trazemos agora para o atual: Brasil, século XXI, ano 2008. Nós brasileiros, maiores de 16 anos, homens, mulheres, homossexuais e indefinidos, independentemente da condição social e religiosa, temos o direito de nos candidatar e/ou votar no nosso político, que dizem ser "nosso representante". Tenham certeza e a "santa paciência", meus representantes eles não são, mesmo que eu tenha votado neles. Alguém que lhe apresenta propostas belamente maravilhosas e depois lhes rouba o dinheiro público para comprar tapioca o representa? A mim não!

Nosso processo eleitoral é referência em várias partes do mundo por não haver grandes possibilidades de fraudes e pela rapidez, mas, mal sabem os gringos que, com a mesma agilidade com que as urnas eletrônicas nos dão os resultados, os candidatos eleitos se corrompem, e jogam sua idoneidade da pré-eleição água abaixo. As propostas, planos e projetos que beneficiariam os pobres, são agora, meras imagens de segundo plano.

Escolhemos nossos candidatos, não é? E agora?... Somos obrigados a aturá-los por quatro anos, com todas as suas falcatruas e pilantragens? Não, não somos! Existem inúmeras possibilidades de tirarmos do poder esses picaretas. O que nos falta é vontade. Aos políticos desonestos ficam as perguntas: E os direitos da maioria? E as propostas que beneficiariam as pessoas pobres? E as reformas favoráveis ao povo? Aos brasileiros, contudo, a massa brasileira: Cadê a vontade do brasileiro de lutar? Até quando assistiremos a tudo? Não nos deixemos que frases midiáticas como "sou brasileiro e não desisto nunca" nos façam acomodados e palhaços. Palhaços espectadores de si mesmos!

terça-feira, 29 de abril de 2008


Para o fim do preconceito

[por Valter Bernardo]

Se o ocidente cada vez mais faz uso da cultura oriental, isso não quer dizer que o preconceito vem diminuindo. Pelo conhecimento superficial que nós ocidentais, de uma maneira geral, temos dos povos do oriente, emitimos muitas vezes juízos discriminatórios e preconceituosos.
O livro de Albert Hourani- Uma História dos Povos Árabes(companhia das letras-2001), vem trazer um proveitoso esclarecimento histórico sobre os árabes, especificamente os mulçumanos árabes. Com toda a trajetória do islamismo, desde o seu início até a década de setenta, Hourani nos põe em contato com uma cultura surpreendente que, como todas, é cheia de especificidades e conflitos. O livro nos abre a um novo mundo e nos faz entender a origem dos confrontos no oriente médio que duram até os dias de hoje.
Assim a leitura de Hourani ilumina nossos olhos pra uma visão sem preconceitos acerca dos povos orientais, de maneira especial, para a sociedade mulçumana. Com uma linguagem fácil o autor nos prociona uma leitura agradável e rica e que só tem a nos acrescentar.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Grass

[por Amilton Augusto]

Ao contrário de uma apologia barata e impensável, Grass (Maconha em português) é um corajoso documentário que nos conta a história da Maconha nos EUA e faz várias análises a respeito.

É uma visão nada tradicional da guerra contra a maconha e as bizarras campanhas estudos-unidenses contra a erva misteriosa. Os bilhões de dólares gastos, as estranhas campanhas publicitárias vinculadas pela mídia ianque, o mito e os interesses políticos, desde 1920 até os dias atuais, são os principais alvos deste filme.

Além de uma segunda visão, a produção nos mostra uma visão crítica que todos nós devemos ter para acabar com o preconceito e quem sabe criar um CONCEITO.


Ficha Técnica

Título Original: Grass

Título Nacional: Maconha

Gênero: Documentário

Ano de lançamento: 1999

Duração: 78 minutos

Direção: Ron Mann

Trecho do filme

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Êta “povinho” que sofre


[por Valter Bernardo]

A primeira vez que ouvi falar de Dubai, na verdade não só ouvi, mas assisti uma reportagem sobre as maravilhas da cidadela dos Emirados Árabes, fiquei estagnado, não podia acreditar no que os meus olhos contemplavam. Hotéis de trinta andares com colunas de até cento e cinqüenta toneladas de ouro, pista artificial de neve para a prática de esqui coberta por uma bolha, shoppings mais resplandecentes que os cassinos de Las Vegas, praias, ilhas artificiais em forma de palmeira put’s parecia mentira holywoodiana. Mas o que mais me impressionou além das maravilhas arquitetônicas foi as condições de vida das pessoas que moravam lá (que apareceram na reportagem, é claro). Alguns médicos, engenheiros brasileiros com salários de 100 a 160 mil dirhams (cerca de 50, 80 mil reais), já que a renda média por habitante ultrapassa os US$ 40.000 (cerca de R$ 73.100), pensei existir o lugar da “utopia comunista”, o “país (cidade) das maravilhas”. Que trouxa (opa!), que pena, estava enganado.

Agora me sinto envergonhado de ter pensado assim e ter sido mais uma vítima iludida da mídia televisiva. Só pude enxergar a outra face da moeda após a publicação de uma matéria no jornal francês Le Monde (01/2008) sobre os direitos trabalhistas no Golfo. Há cinco meses uma rebelião tomou conta de Sonapur, um bairro distante do centro de Dubai, onde mora uma grande quantidade de trabalhadores. Milhares de operários da companhia de construção civil Arabtec, vindos de varias regiões (Paquistão, Índia...) entraram em greve e reivindicavam um aumento no salário de 400 dirhams (+ou – R$200) para 900 dirhams (+ou- R$450), pediam também passagens duas vezes ao ano para visitarem a família e o reembolso dos medicamentos. Os grevistas naquele dia foram embora cheios de esperança e nem se importaram em dormir com mais cinco ou seis pessoas num quarto de aproximadamente 7 m2 como acontece na maioria das casas em Sonapur, por uns dias nem sentiam mais o cheiro de esgoto que tomava conta da água que bebiam, não mais reclamaram de almoçarem nas cozinhas improvisadas em meio às construções. Contudo, segundo Claire Gatinois do jornal Le Monde “o caso foi abafado, mas não solucionado”, (Que surpresa!).

Depois de dois meses os proletários receberam 100 dirhams (cerca de R$50) a mais para a alimentação. Que alegria! Os operários poderão comprar uma marmita nova, tomar um copo de leite no café da manhã, um quibe a mais no almoço e quem sabe se economizarem poderão comemorar o aniversario com bolinho e suco na companhia dos amigos.

A tentativa não fracassou totalmente. Para os Emirados que buscam atrair os turistas ocidentais a repercussão do fato na mídia internacional não caiu muito bem. Com isso os representantes do Emirado Árabes Unidos, do Bahreim, Qatar e Kuait resolveram se reunir com os países asiáticos que “fornecem” 80% dos trabalhadores, para discutirem sobre os direitos trabalhistas.

Os PS’s (proletários e simpatizantes) esperam (vício esquerdista) que os resultados dessa cúpula inédita sejam significantes e que Alá ouça a voz do doutor Walee Al-Alawi – ministério do trabalho no Bahreim – “[...] é preciso encontrar meios de proteger esses trabalhadores”.

Voltando os olhos para nossa terra de “palmeiras onde canta o sabiá” vemos que a coisa aqui também anda feia. De acordo com o IBGE o trabalhador brasileiro está ganhando menos que em 2002, apesar de o número de pessoas no mercado de trabalho ter aumentado. Em 2002 entre março e dezembro o rendimento médio foi de R$1205,39 e em 2007 no mesmo período, 5% abaixo, R$1145,08. Mas espere aí; um país auto-suficiente em petróleo, com um aumento considerável de exportações (principalmente grãos) nos últimos cinco anos, mais pessoas trabalhando, maior produção, um salário que aumenta, mas ainda estamos ganhando menos que há cinco anos atrás? A mais-valia continua longe dos bolsos dos proletários. E outra coisa, se a renda media é de R$1145, alguém está com a minha outra metade.

Diante desses fatos vale a pena comentar o que o senhor da Microsoft, o primeiro, segundo, ou terceiro (não importa) homem mais rico do mundo, Sr. Bill Gates, disse em reunião no Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça. Ele pediu aos líderes econômicos e empresariais que incentivassem “uma nova aproximação ao capitalismo criativo no século XXI[...] para impulsionar a inovação tecnológica e reduzir as desigualdades”, mas não foi incrível criatividade desse sistema que criou o maior fosso de desigualdade entre os homens? E não foi graças a sua dinâmica que se formou o sistema de competição mais desigual, injusto e desumano que o homem já conheceu? Terá de ser mesmo muito criativo para “descriar” que ele próprio criou.

Planeta Febril

[por Amilton Augusto]

A Terra está em alerta! Salve-se quem puder - ou melhor, nos salvemos em união. Foi acionado o botão vermelho e tocada a sirene de aviso: temos menos de cinqûenta anos para reduzir pela metade a emissão de gás carbono céu acima. Se isso não acontecer, nós, Homo sapiens (sapientes ou não) e toda a biodiversidade estará fadada a morrer engolindo "sacos de fumaça", feitos em entrega delivery nos nossos cômodos domicílios, ou quem sabe, faremos, todos, parte um cozido humano, preparado pelas ações inversas de nossos modernos ares-condicionados.

Acomodados com as facilidades trazidas pela tecnologia, esquecemos quase sempre, que o planeta está doente, está febril. Os dinossauros foram alvos de extinção há milhares de anos, mas agora, o alvo é uma espécie chamada Homem. É comum vermos na televisão, propagandas emotivas de ongs. Essas chamadas martelam e ecoam em nossas mentes, e nos fazem refletir (às vezes não) sobre o nosso futuro, e infelizmente desaparecem feito mágica quando o próximo bloco da novela ou do filme hollywoodiano recomeçam. Filmes e novelas estes que consomem toneladas e toneladas de materias, que ao fim da produção se tornarão quase todos lixo, mero lixo, contribuindo para que sejamos traídos pela nossa própria hipocrisia.

As soluções? Ora! Essas são várias: trocar o carro pelo transporte coletivo ou pela bicicleta; não jogar lixo na rua; fazer coleta seletiva; não queimar; não desmatar; plantar árvores; tratar o esgoto da cidade; consumir menos; optar por produtos biodegradáveis e com menos embalagens... São todas soluções primárias e estão ao alcance de todos. Mas, quando estas soluções ameaçam o conforto individual, surgem então as célebres frases: "que se dane a sustentabilidade", "quando o mundo acabar, não estarei mais aqui", "sozinho não posso fazer nada", e a displicência humana põe em cena a sua condenação.

São Paulo tem expectativa de vida menor em relação a outras regiões do Brasil em 1,5 anos devido á poluição. Um ser humano consome em média 3,5 quilos de lixo por dia, o mundo aquece cada ano mais e o caos se estampa pouco a pouco (ou talvez depressa demais). Qual será nosso fim? Quanto tempo demorará para chegarmos ao fim? Quando vamos realmente nos conscientizar do tamanho do problema? Não é utopia achar que se esta atitude começar de você, de mim, ou do seu vizinho o mundo estará menos febril, menos enfermo. Levante, pense, comece!

quinta-feira, 24 de abril de 2008

A primeira vez...

Bem vindos ao Rodízio Cultural!


Rodízio Cultural é um espaço divulgador de idéias alternativas e culturais. Fornecer informações, suscitar discussões sobre assuntos polêmicos que envolvem arte, filosofia, política, história, sociologia, com o objetivo de buscar o diálogo com diferentes opiniões sobre temas polêmicos da vida humana e desenvolver um senso crítico, com intenção de quebrar barreiras do preconceito e do senso comum.